02 October 2007

cuidado com o SIDA (3)

(Maputo, 2003)

Foram polémicas as declarações da semana passada do arcebispo de Maputo, Francisco Chimoio, à BBC, segundo o qual dois países europeus infectam deliberadamente preservativos com HIV, com o objectivo de exterminar as populações africanas. Trata-se de um comentário da responsabilidade do Clero, e portanto do Vaticano (pergunto-me se, afinal, a Terra move-se), que provocou indignação na Europa, e que gerou em Moçambique, um interessante debate, enquadrável naquilo que é hoje definido por discursos pós-coloniais.
Após a independência dos países africanos produziram-se, tanto em África como em anteriores potências colonizadoras, novas interpretações da história e da sociedade, que procuram subverter um paradigma europocêntrico e colonial. Em África, as novas análises passaram a destacar os conflitos sociais entre os anteriores colonizadores e colonizados, bem como os aspectos políticos e económicos da acção colonial, e respectivas repercussões nas actuais condições de vida dos africanos. O pressuposto destas análises é que a exploração dos recursos das colónias constituiu o resultado de relações sociais assimétricas, que importa denunciar. As novas abordagens assumiram um carácter nacionalista, de cariz marcadamente anti-colonial, classicista e militante.
A partir da década de 90 desmantelou-se o apartheid e o bloco soviético, que tiveram a sua influência por toda a África Austral, e multiplicaram-se, na região, ensaios de regimes políticos democráticos e liberais. A redução do papel do Estado na economia, o aumento do investimento estrangeiro, a persistência ou o agravamento de fenómenos como a corrupção, as assimetrias ou a exclusão social tendem a subverter os projectos políticos e sociais, idealizados aquando das independências. Neste cenário surgem novas e variadas perspectivas (pós-coloniais) que vêm problematizar narrativas (anteriores), de cariz marxista, populista ou anti-colonial, assim como a própria formação do poder e das classes sociais.

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02 August 2007

cuidado com o SIDA (2)

Maputo, 2004

Os discursos sobre o continente africano oriundos das ciências sociais, da política e, sobretudo, dos mass media enquadram-se naquilo que o queniano Abdalla Bujra definiu de afro-pessimismo. Trata-se de uma atitude que simplesmente projecta tendências passadas sobre o futuro e não vê mais nada para além da escuridão de África. Segundo esta percepção, os países africanos constituem regiões sem esperança, marcados pela pobreza, por doenças endémicas e pelo sub-desevolvimento, pela corrupção e pela violência política. Os processos de reprodução das desigualdades sociais traduzem-se num contínuo aumento do fosso entre os países desenvolvidos e os em vias de desenvolvimento. O peso económico da África subsariana no conjunto da economia internacional torna-se progressivamente menor. Entre 1950 e 2000, a sua parte do PIB Mundial, expresso em paridade de compra, caiu em cerca de um terço e, em 2005, não representava sequer 1% a nível Mundial. Até meados da década de 1990, a África subsariana apenas participava nuns escassos 2% do total do comércio Mundial. A ominipresença destas notícias sobre África conduz a projecções negativas para o futuro do continente.

Esta visão contrasta com outras representações mais optimistas que apresentam África como um continente que, apesar dos problemas evidentes de que padece, dispõe de recursos e de possibilidades suficientes para olhar o futuro com outro sentimento. De acordo com dados da United Nations Statistics Division, em Moçambique, ao longo da década de 1990, a taxa de crianças matriculadas no ensino primário aumentou para 41% (+11%), e a população a viver em situação de desnutrição diminuiu para 47% (-19%). A taxa de mortalidade infantil registou também uma diminuição para 147 (-88) crianças por cada mil nascimentos.

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30 July 2007

cuidado com o SIDA

Bilene, 2004

Numa crónica do Expresso assinada por José Cutileiro lê-se que de acordo com "sondagens recentes conduzidas por gente séria e experimentada" (o que só assim não significa rigorosamente nada), a maioria dos africanos são muito mais optimistas do que os europeus quanto ao seu futuro e ao da próxima geração. De acordo com a incógnita investigação, apesar da descrença geral em relação à transparência de escrutínios eleitorais, ao usufruto das riquezas do país e à honestidade dos dirigentes, 69% dos nigerianos estão seguros que as crianças de hoje terão em crescidas uma vida melhor do que a deles. Que por todo o continente subsariano houve respostas parecidas. Em França, Alemanha, Itália, Japão, Canadá e Estados Unidos, pelo contrário, maiorias significativas estão convencidas que os filhos terão vidas bem piores que as suas. O optimismo dos africanos foi relacionado com o facto das suas economias estarem a crescer muito mais do que as do dito "mundo desenvolvido". Não sei… Cuidado com o SIDA.

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