30 April 2007

pára-me de repente...



Em Portugal existe uma geração viva que cresceu a ouvir “que pena não teres nascido menina. Assim não ias para a guerra”. O destino era a emigração clandestina ou Angola, Guiné ou Moçambique.
De treze anos de guerra resultaram, só do lado português, cerca de 10 mil mortos e 30 mil deficientes, bem como 500 mil retornados. Muitos que voltaram fizeram-no com uma única certeza: que se mataram ou se viram morrer teriam de conviver o resto da vida com o defunto ou com o assassino, que acontecesse o que acontecesse, enquanto vivessem, teriam de o fazer tendo eles próprios por companheiros… Para esses, o passado nunca morreu, aliás nem sequer foi alguma vez passado.
Esse turbilhão de gente que fervilhou no calor africano e que intensamente aí viveu a loucura da juventude constituiu a geração histórica que assistiu à queda do império, ou melhor, do seu seu mito. Foi a traumática saída de África, para colonizadores e para colonizados (como escreveu o Mia Couto, em África aconteceram dois dramas: o primeiro foi a chegada do homem branco. O segundo foi a sua partida).
Portugal cingiu-se ao canto da Europa, reestruturou o seu lugar no Mundo e orientou-se para a União Europeia. Para muitos, o outro continente manteve-se presente no remorso e na saudade, na fantasia e no pesadelo, no silêncio e no tabu.
Com o fim das guerras civis e com o boom económico de Moçambique e Angola renasceu o discurso retórico da vocação atlântica. São comitivas de políticos e de empresários de orientação neo-colonial que embarcam cheios de presunção e de ideias feitas. Hoje, quando o calor aperta, quem durante o crepúsculo visitar a campa de Salazar, no preciso momento em que o Sol toca a linha do horizonte talvez consiga escutar um ligeiro sussurro: “Para Angola imediatamente e em jeito”.

25 April 2007

I´m free and I am happy

Vilankulos, 2003

Enquanto cantava reli este delicioso texto de valter hugo mãe:

“às vezes penso que o vinte e cinco de abril de setenta e quatro foi o dia em que a minha cabeça nasceu. a ideia é mais simples do que possa parecer, dessa data guardo a minha recordação mais antiga.

em setenta e quatro eu faria o meu terceiro aniversário e posso lembrar-me daquele dia por duas razões distintas, nenhuma menos relevante para toda a minha vida; primeira: eu estava com os meus pais e os meus avós maternos em lisboa, subitamente apanhados entre ruídos de tiros e confusões em redor do banco de portugal; segunda: viéramos de angola havia pouco tempo e lá não vira nenhuma criança loira, de pele clara, como o menino que brincou comigo no tempo de espera pelo meu pai. (…) um menino disse-me, eu cá vou para o escorrega, e eu nunca mais esqueci a sua expressão oral. dizia eu cá para tudo. parecia-me estranho. e menos igual vira um menino tão claro que me confunde ainda hoje a memória: não sei se em verdade o dia estava luminoso, se era o cabelo dele que o acendia em nosso redor. (…)

no dia em que a minha cabeça nasceu ofereceram-me a liberdade e conheci a diferença. conheci e aceitei a diferença. que no mundo haveria de ver gente clara ou escura, pobre ou rica, mão esquerda ou mão direita fechada sobre o peito, e haveria de me reportar constantemente àquele momento que guardei esquecido para só entender mais tarde. haveria de entender, vez por todas, que não desperdiçaria nunca coisa tão cara que um só dia me trouxe”.

20 April 2007

is this active citizenship? (5)

Coimbra, 2007
E se o verdadeiro sentido das coisas fosse mesmo as coisas não terem verdadeiramente sentido nenhum?

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14 April 2007

sabedoria de ponta (2)

museu da revolução, Maputo, 2003

- (jornalista) A sua vida está a melhorar?
- (camponês) Está a melhorar, está a melhorar. Mas está a melhorar muito mal.

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13 April 2007

escravitude

Redondela, 2002

A cerca de 10 km de Santiago de Compostela existe um lugar chamado Escravitude. Quem percorre o caminho português, cinco dias e cem quilómetros depois da fronteira depara-se com uma questão: continuar a pé ou apanhar o autocarro?

Escravitude, 2002

11 April 2007

Virgínia e Franz

(los lavabos de la librería La Central del Raval en Barcelona, 2006)

- (Ela) Sinto que hoje não fiz nada de produtivo.
(silêncio)
- (Ela) Sinto que os dias são todos iguais.
(silêncio)
- (Empregada do café) O que era?
- (Ele) Um fino
- (Ela) É só. Ou melhor, é tudo.
(silêncio)
- (Ela) Mas a sério, não te apetece fazer hoje alguma coisa de diferente?

08 April 2007

o senhor le pen e a masturbação

De acordo com o jornal Público de hoje, Jean-Marie Le Pen teve, durante o fim-de-semana de Páscoa, uma das propostas mais originais da actual campanha eleitoral francesa. Ao participar num debate no Instituto de Ciências Políticas de Paris opôs-se terminantemente à distribuição de preservativos nos estabelecimentos de ensino secundário, dizendo que as mulheres têm uma maneira muito fácil de não engravidar: limitarem-se à masturbação.
Tenho a dizer que achei muito interessante esta perspectiva do senhor Le Pen. Apetecia-me até fazer uma piada sobre higiene, saúde e distribuição gratuita de toalhetes, mas não faço porque seria de muito mau gosto e eu não sou malcriado (ou afinal sou) e porque não quero estragar a piada do senhor Le Pen.

07 April 2007

josina

Macia, 2004

Josina sonhava mudar o Mundo. João compreende que é difícil mudar o Mundo, o que não significa que aceite o Mundo como ele é.
Josina dedicou a sua vida à luta revolucionária. Perante o sentimento de impotência, João canaliza o seu inconformismo, a sua mágoa e solidão e procura transformá-los simplesmente em poesia e beleza.
Josina viu e sentiu dor e sofrimento. João, nas suas fotos, talvez não veja dor ou sofrimento mas simplesmente dignidade, simplesmente o Homem na sua mais humana condição.
João não se esqueceu que hoje foi o dia de Josina, o Dia da Mulher Moçambicana.

05 April 2007

sabedoria de ponta

Inhambane, 2003

- (tio mostrando slides) Olha, queres ver fotos dos meninos lá de Moçambique?
- (sobrinho, após silêncio) As pessoas lá são todas castanhas?

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04 April 2007

this is not a love letter

Berlin, 2005.

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03 April 2007

is this active citizenship? (4)

Braga, 2007

Lá no emprego as coisas não estão bem, a minha namorada deixou-me e não tenho dinheiro para comprar um telemóvel 3G, para fazer as vídeo-chamadas que não preciso fazer. Ainda por cima não gosto do cão do vizinho que mora a três quarteirões de mim e que, raios o partam, nem é português (se bem que a mulher dele é bem boa). Preciso de arranjar alguém para culpar das minhas frustrações. Não me interessa que tenha culpa ou não. Claro que não me vou culpar a mim próprio. Dar parte fraca!? Eu!? Qualquer dia vão-me pedir para ser simpático com as pessoas.

Por esse motivo vou culpar o Homem de Neandertal, esse sacana que invadiu o nosso país, que veio dormir com as mulheres do Homo Erectus e poluir a nossa raça. Toda a gente sabe que a cultura do Homem de Neandertal era claramente inferior e que ele não tinha capacidade de integração nesta região. Ele foi, ainda é e será sempre o grande culpado do estado da nação. Caramba, o Homo Erectus estava cá primeiro!

Já antes, quando o primeiro anfíbio invadiu as nossas zonas terrestres, com a sua política de natalidade expansionista, a nossa sociedade sofreu um forte abalo. Foi a decadência dos nossos valores vegetais originários. Ou terá sido com o Big Bang?

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